terça-feira, 17 de março de 2009

Elis 73


Para Severino José


A capa é simples, com bordas brancas e, no centro, uma imagem em preto e branco na qual se vê uma mulher sentada, rosto baixo, fechado em si, em meio àquele ambiente de intensa grandeza e paradoxal simplicidade. As mãos, em concha, estão uma ao lado da outra, num jogo de sombras em suas formas de veias e dedos firmes, com um contraste entre luz e escuridão no qual se realça mais o clima de introspecção. Na contracapa, a mulher está ainda sentada, o olhar em desafio, como uma esfinge.Nisso tudo, um detalhe: as mãos, quase unidas num gesto de tensão refletido nas veias.Quase uma pintura barroca. O fotógrafo: Jacques Avadis; a modelo: Elis Regina; a obra: um disco seu de 1973.

Penso que, muitas vezes, certos artistas não têm noção da grandeza que eles criam ao conceber certas obras e, nisso, penso em Björk, em Vespertine, ou nos filmes de Bergman. É como se a obra se tornasse algo tão transcendental em sua linguagem que a forma fosse apenas um meio de expressão e o artista o ponto criativo que apenas gerou aquilo que, de tão grande, não lhe é mais. Falo o mesmo desse disco de Elis.

Sucedendo um LP cheio de clássicos instantâneos ( Atrás da porta e Águas e março (versão 1)), o disco de 73 trazia algumas coisas, por assim dizer, estranhas: a expressão de Elis é fortemente séria, não há cor na capa nem na contracapa ( como se disse acima), contrastando com a capa do de 72, o mesmo dos clássicos já citados, uma capa onde se vê uma cantora sorridente sentada numa cadeira e cheia de uma expressão tranqüila de quem estava entrando em uma nova (e duradoura, como se viu depois) relação amorosa. Detalhe: o novo namorado/marido nesse disco de 72 não por acaso é César Camargo Mariano, o pianista que fez belos arranjos para o disco de 72, numa onipresença em todas as faixas. Só pra se provar que o amor pode render belas coisas que ficam registradas no tempo.

Não é só a capa que traz uma certa estranheza. A própria Elis comentou em uma entrevista, na ocasião do pós-lançamento desse disco de 73, que não era só o disco que havia mudado, mas a cabeça dela também. De fato, quem ouve o disco de 72 e quem passa pela experiência de ouvir o de 73 nota isso e percebe, mesmo nas sutilezas, que ela tocou num estado sublime de arte e produziu uma obra cuja dimensão supera a temporalidade. Mas isso é só minha opinião.

De qualquer modo, estão lá faixas como Oriente, na qual se percebe o tom grave que a voz assume na introdução e nos volteios que ela faz entre os timbres agudos, realçando a força da letra casando perfeitamente com os sintetizadores. Ou ainda há a tensão interpretativa de Doente morena, de Gilberto Gil, e O caçador de esmeraldas, de João Bosco e Aldir Blanc, essa última com citação de Lorca meio alterada e com uma letra perfeita entre passado histórico ( Fernão Dias desbravando o Brasil) e um casal que se amassa num fusca no Recreio dos Bandeirantes. São canções distintas, mas que se casam claramente com a voz e a contenção íntima que as letras pedem.

Estas músicas só se engrandecem quando se ligam a outras cuja intensidade é realçada pela sintonia sem igual entre a afinação de Elis (que, curiosamente, nesse disco está com um timbre mais agudo e indo a graves profundos), as letras (basta ver Agnus sei e perceber do que falo) e os arranjos. Além do capricho de César Mariano no piano, Paulinho Braga e Chico Batera dão aula de bateria e percussão (na já citada Agnus sei e em Comadre, entre outras) e Luisão conta historias com seu baixo. Cada um se mostra gênio naquilo que faz, seja na introspecção melancólica de Folhas secas e É com esse que eu vou (uma aula de divisão de frase ), seja no samba com jeitão de jazz que é meio de campo (ouvi tanto essa música pra perceber seus detalhes que temo abusá-la).

Tenho ouvido esse disco esses dias com fones nos ouvidos e fico impressionado com as nuances dele e com a respiração exata de Elis nos momentos de modular e dividir as frases musicais. Não por acaso ponho esse texto hoje aqui porque, se estivesse viva, Elis faria, neste dia 17, 64 anos.

Fico sempre pensando que, se ela estivesse ainda por esse mundo, o que cantaria. Imagino que sua voz já teria ido a regiões impensáveis do som, pois quem ouviu seus últimos discos sabe do que falo. Ainda assim, por outro lado, penso que se toda sua discografia fosse ruim ( o que é impossível de ser ) ou pequena, ela já teria alcançado Deus só com essa pequena obra cuja importância supera até mesmo o sempre histórico Elis e Tom. Quem não os ouviu, ouça. Garanto que não vai mais esquecer.

2 comentários:

pedro disse...

viva elis. esse disco é mesmo muito bom.
um abraço

LuCais disse...

maravilhoso esse disco! fiquei impressionado quando ouvi pela primeira vez. os arranjos são muito diferentes. gosto principalmente dos arranjos de agnus sei, cabaré e oriente.