terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Outras trilhas sonoras de outros dias

Estou a caminho do carnaval em Recife. Não que adore carnaval, até porque multidões e empurra-empurra me deixam mais nervoso e tenso que o habitual. Não sei o que me espera e se soubesse, óbvio, não iria se fosse ruim e, pelo desejo que me rege neste instante, este não será um carnaval de mágoas nem melancolias, talvez de uma terna saudade.

Mas isso é assunto para o futuro, porque o presente, este que falo no momento que ele se esvai no percurso do tempo, tem sido feito de alegrias e medo de que a felicidade seja tão efêmera que só nos reste a tristeza como lembrança. e, como sempre, tenho ouvido muitas músicas, sempre associadas a essas fases, algumas muito ligadas a determinados fatos, outras sem relação com nenhum deles, mas todas servindo de trilha sonora dos dias.

Já havia escrito antes que tinha descoberto Jhonny Cash em uma versão ( se é que ali não é a máster de tão boa que ficou ) de Hurt do Nine Inch Nails. Depois disso, comprei vários de seus discos da série American, faltando, curiosamente, o lV que tem essa tal versão. No entanto, o lll trouxe outras que me chamaram igualmente a atenção.

Uma delas é That Old Lucky Sun cuja versão voz e violão de Cash me lembrou a que Ray Charles fez dessa música. Se alguém me perguntar qual a melhor, não saberei responder porque ambas são igualmente lindas e solenes em sua grandeza, ora pela letra religiosa, ora pela pungência da voz imperativa de Cash ou pela roquidão emocional de Ray.

No entanto, neste mesmo disco, nesses acasos de uma música que toca displicente e você a “vê” de outro modo, eis que surge outra cujos versos iniciais me chamaram a atenção de cara. A música se chama I see a darkness. Não sei se minha interpretação está equivocada, mas essa letra é uma bela declaração de amor na qual joga-se de modo aberto e sem chances de “faz de conta”. Ou será que estou enganado? Ainda fiquei intrigado com o darkness que ele vê e repete em seu refrão marcado por uma emocionada virilidade. Ouçam e tirem suas conclusões.

Bjork e o Sexo

Sempre falo, e vou continuar falando por um longo tempo, que, depois de Vespertine, Björk já podia ter se aposentado. Não que ela mereça a aposentadoria, até porque, tirando aquela trilha sonora feita para um filme do marido, ela é uma das poucas que não cedem aos apelos fáceis, seja lá o que esse chavão queira dizer. Para isso basta ouvir o Volta, de preferência de madrugada com o dia se abrindo entre luz e escuridão. Se tiver boa companhia para isso, então seja feliz. Quem o ouviu sabe do que falo.

Mas falo sempre de Vespertine porque ele é único, é o tipo de obra que marca tanto um artista que ele será sempre lembrado por ela. Os sons de harpas, barulhos sutis ( salve, Matmos !!! ), os sinos de caixas de música e o coro feminino criam uma sensação tão etérea que é como se, em cada audição, houvesse outro mundo surgindo ali, criando uma sensação de intimidade e introspecção. Não sei, mas acho que não estou exagerando, até porque as letras nos levam a isso. Tanto Hidden Place quanto Pagan Poetry são músicas que trazem todos esses elementos e tocam no amor de modo paradoxalmente carnal e transcendente.

Falar de sexo, para mim, sempre é delicado porque o cara que escreve, ou a mulher, neste caso, tem que saber o limite entre resvalar na grosseria ou ser sutil o suficiente que não agrida aos ouvidos mais pudicos, como os meus, acreditem. Faço esse comentário porque Björk consegue transpor a sexualidade de modo quase cru, mas não tão chocante que quebre essa frágil sensação de intimidade silenciosa que só os casais sabem quando estão no escuro de sua partilha, seja onde for.

Falo isso porque nesse disco há uma canção chamada Cocoon que trata exatamente disso. Bjork já havia falado de sexo em metáforas quentes em Possibly Maybe, do disco Post, mas em Cocoon há um clima de velada intimidade na qual os sussurros da cantora e a letra confessional sacralizam de tal modo o amor que quase não se percebe que ali há,de fato, uma relação sexual da mais intensa beleza.

Era para falar de Billie Holiday e seus discos finais, mas isso fica para pós carnaval.....

Sobre o Rio, meses depois...

Para Soraia B.

Em outubro fui ao Rio. E ir ao Rio sempre é uma experiência. Não falo aqui pelo que se ouve de lá, violência nos morros, morte ou quedas de barreiras. O Rio que falo aqui não é o da luz intensa e das montanhas (ou serras, nem sei) que rodeiam a cidade, e lhe faz o bem e o mal, nem é o Rio cantado pela Bossa Nova, o mar, o Cristo, o amor e a flor.

O Rio que falo aqui foi o que se construiu ao longo dos quase 7 dias que passei lá, um Rio de risos e lágrimas contidas, pouco sono e uma intensa vontade de viver cada mínima sensação com a certeza de que algo se revela, acenando para novas direções. Não fui sozinho. Me acompanharam 6 pessoas e suponho que cada uma, ao seu modo, voltou com a retina mudada não só pelas imagens lindas que viu.

Uma cidade como cenário.

A partida foi marcada pela excitação e o riso fácil. Todos estávamos empolgados demais com os planos de visitar os lugares certos, a praia certa, o sol exato. 32 horas de longo caminho sob sonos longos e profundos ou tudo o q pudesse enganar o fato de que não se podia fazer nada além de esperar o término para, enfim, podermos executar nossos planos de felicidade.

Executar planos, atingir metas, e tais metas eram medidas pelo desejo de, alguns, se sentirem donos de si, nem que fosse por uns dias; outros, apenas viver a experiência de estar na Cidade Maravilhosa. Mas o que me chamou a atenção não foi a cidade, nem sua luz intensa.

O que me chamaram a atenção foram os sinais sutis passados nos olhares, silêncios e euforias de cada um de nós. De fato, hoje, mais que antes, sei: nada do que se planeja tem o mesmo valor do que chega sem você saber. Isso parece frase feita de beira de jornal, mas, neste caso, especificamente, cabe, vale e se ajusta a cada coisa vista ou vivida por lá.

Não gosto de fazer programa de turista, tipo ir aos pontos aonde todos vão. Há amigos meus que estranham isso porque, pelo que se espera, é natural que, em lugares novos, e, no caso da cidade citada, lindos, se vá a cada lugar cujas fotografias só realçam as cores e os significados que eles têm, ou podem vir a ter.

Pois bem, nesta viagem resolvi seguir a trilha: Cristo, Forte de Copacabana, Ipanema, Lapa e, último dos lugares onde me encontrariam, Maracanã, lotado pelo jogo do Flamengo contra o Corinthians. Ainda para arrematar, praia de Copacabana com sua água gelada de espantar.

De toda essa seqüência de passeios, muitas marcas ficaram além das feitas pela pele queimada pelo sol dessa manhã de silêncios e estranhamentos. Na volta para casa, tão desejada, suponho, porque depois de dias fora do eixo, o corpo e a cabeça pedem mais rotina, observei cada um dos que foram comigo, inclusive me observei. Uns choravam em discrição, outros ficavam em longos silêncios eloqüentes, outros iam embora com a certeza de que amores nascem e alguns sentimentos não tão grandes são tão menores do que parecem que morrem antes mesmo crescer. Espero agora que os sentimentos, já fortalecidos, cresçam. Isso só tempo, como sempre, diz. Mas se tiver o Rio como cenário, melhor será.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

mais velho que no futuro

Às vezes falo com pessoas de 20 anos ou um pouco mais a respeito de coisas que eu via ou ouvia quando tinha a idade deles, ou um pouco menos, e me espantava (hoje não me espanto mais). O espanto vem porque eles não conheciam coisas tão familiares, pelo menos a mim. A negativa deles à minha pergunta sempre me colocava e ainda coloca na posição de saber, sim, que não sou mais tão novo. Confesso: estou em crise, entre tantas, e a que se instaurou há um tempo me joga no centro da minha idade.

Não sei se isso é porque convivo com gente mais nova que eu ou porque meus amigos não demonstram sinais de tal crise. O fato é que me vejo mais velho que no futuro e isso tem me colocado o impasse entre aceitar a bela maturidade ou ter a chamada “alma jovem”. Isso para mim é de certo modo uma bobagem; alma jovem não adianta muito se o corpo não reflete a intensidade da juventude, e ser maduro, muitas vezes, não depende de o cara ser velho. Conheço gente nova que dá de 10 em muitos que se aventam a afirmar-se como senhores da razão.

Falando assim, no entanto, parece que estou no lamento de quem não tem mais o que fazer a não ser esperar a morte chegar, como dizia Raul Seixas. Pelo contrário. Na mesma proporção em que me espanto com o tempo passando ao ver que tanta gente não conhece o que vivi, vejo que algo se constrói: a minha vivência, aquilo que me faz me sentir mais experiente ou mais seguro em relação a alguns aspectos da vida.

Certa vez, falando com uma amiga, ouvi dela que éramos da geração X, segundo ela aquela geração que estava no meio termo entre ser adulto, e assumir uma vida como tal, ou ainda estar sob os efeitos da adolescência. Eu me identifiquei total com isso. Como nunca me vi muito adaptado às obrigações adultas, sempre estive no limiar dos que não sabem se compram um carro ou se casam, ou ainda se apenas gastam o que ganham com cd’s, tênis, livros e nada que possa indicar que, enfim, há responsabilidades totais de adulto.

Não sei se isso tudo é reflexo dessa tal crise ou se tem a ver com o fato de que minha geração cresceu sob outras expectativas, bem diferentes da geração de meus pais, na qual ou se tentava mudar o mundo ou se adaptava a ele muito facilmente, vivendo, como cada um podia, aquela seqüência se-formar-casar-ter-filhos-um-bom-carro-e-uma-boa-casa.

A minha geração, não inteiramente, é óbvio, optou por não mudar nada e redefinir a seqüência, valorizando mais a experiência e sem grandes apegos a noções de eternidade. Daí que, livres, as responsabilidades recaem sobre quem as decide viver na sua liberdade e nas inúmeras opções que a vida pode ter. Talvez hoje case-se menos, ou separe-se mais, porque não haja tantas necessidades de se viver uma vida mais “fechada”.

O fato é que se envelhecer é sinalizado pela intolerância a certas bobagens e não dar importância a tantas outras, estou, de fato, velhinho. Se envelhecer é saber que estou diante da clara constatação de saber que sou livre, como um amigo me falou há alguns dias, então estou envelhecendo sob os signos da liberdade culpada, aquela que nos deixa a mercê das próprias decisões, mas sem saber se elas são as melhores. Sei que isso gera um paradoxo, pois, afinal, espera-se que um cara de 35 já seja seguro o suficiente para responder a qualquer questão com a firmeza que o tempo, e a já citada experiência, nos dão.

Não tenho resposta a isto,mas resolvo o paradoxo afirmando que, diante de tanta liberdade, quero sobretudo aquela que me faz ver que posso errar muitas vezes, como se tivesse 17, e que nem por isso sou menos maduro, ou velhinho, seja lá o que isso possa ser.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Correr para o salto





"O Céu abriga o recado / Que é pra eu me guardar / Mudanças estão por vir"
(Marina Lima, O Chamado)
08 vai ser o ano. Ou melhor: O ANO. E nem sei porque falo isso, mas tenho tido a clara vontade de que ele, de fato, assim seja.

Em 08 faço 20 anos “de carreira” longe de casa, 35 de vida e 4 de sobrevivência no sertão, mais sertão que nunca, menos simbólico que sempre. Definitivamente, Luiz Gonzaga hoje me soa menos saudosista que há, no mínimo, dez anos e as veredas do sertão de Guimarães Rosa me soam como uma memória afetiva do livro que não li.

Pelo menos concretamente, este ano já começou diferente. Fiz mudança de casa, entre o natal e o ano novo, me desfiz de coisas, rasurei outras e estou, aos poucos, aprendendo a lidar com o caos. Leia-se caos: casa-com-quase-tudo-fora-do-lugar.

Desta mudança, tão concreta, tão arduamente física ( meus braços e pernas doeram como se eu tivesse malhado dias em horas ) e tão refletidamente onerosa ( gasta-se para se deslocar, e como!!!), outras, estas menos perceptíveis, já senti.

A principal delas é como já não me grilo tanto com o fato de que as coisas estão fora do lugar. Quem me conhece há mais de 4 anos sabe do que falo, assim como também deve saber o quanto sempre prezei cada coisa que possuía. Não que as despreze, mas, ao que parece, com exceção de uma outra coisa aqui e ali, nada me faz tão mal se eu me desfizer dele ou se não estiver mais comigo.

Lendo assim o que escrevo certamente pensarão que isso é jogo retórico ou um papo revista Claudia, de tão piegas que parece ser. A verdade, no entanto, é que, ao invés de enumerar planos-de-janeiro-para-o-ano-inteiro eu resolvi observar o passado a partir do presente. Ver tais mudanças aclaradas em coisas tão físicas, às vezes ásperas, me dão a dimensão de outras que, cabendo ou não nos planos de janeiro, podem me ajudar em saltos maiores do que minhas pernas doloridas pelo peso dos móveis carregados desejam dar. Agora é só exercitá-las o suficiente e correr para o salto.



quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Drummond, Lorca, um sentimento




Esta semana está sendo atípica. Viajei, aliás tenho viajado muito, e para lugares díspares, e nesta última viagem obrigatoriamente tive que me envolver em leituras, análises e interpretações de poetas. Ou seja, voltei minha vida por uns dias exclusivamente para a poesia e sua função ou, num sentido mais amplo, voltei meus olhos míopes para o fenômeno literário, segundo alguns teóricos. Afora o caráter por vezes áspero que a técnica pede, esta volta, esta ação soou como uma retomada.

Reli poetas e redescobri outros, mas, dos tantos que li, 2 me chamaram a atenção sobre sua voz: um é Drummond, o outro Lorca.

De Drummond, vi Adélia Prado, mineira como ele, ler, emocionada, um poema feito por ele chamado Tarde de Maio. Ela não se conteve na leitura e chorou sem terminá-lo. O outro que li,o de Lorca, descobri ao acaso, selecionando textos dele.

Lorca não foi só um grande poeta, mas também um autor de textos dramáticos fortes, cheios de imagens que ressoam no nosso inconsciente ( se é coletivo, só Jung nos salva na resposta). Mas o que destaco aqui é um poema seu, cujo título é Alma Ausente.

Ambos os poemas, ainda que com tratamentso distintos de suas imagens, falam de coisas comuns: a perda, a falta, a solidão causada pela vontade de preenchimento, tudo isso ecoado por uma voz de resignação quase trágica, mas altiva.

Nesses dias em que me retraí só no universo da poesia, onde a falta e o fim prenunciado de coisas que talvez nunca nasceram, tais poemas me falaram mais que antes, mais que agora, mais que nunca.Ei-los:




TARDE DE MAIO




Carlos Drummond



Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de [seus mortos,


assim te levo comigo, tarde de maio,


quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,


outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,


surdamente lavrava sob meus traços cômicos,


e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes


e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma


nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza


sem fruto.





Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,


colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.


Eu nada te peço a ti, tarde de maio,


senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,


sinal de derrota que se vai consumindo a ponto


de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém


que, precisamente, volve o rosto, e passa…


Outono é a estação em que ocorrem tais crises,


e em maio, tantas vezes, morremos.



Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,


já então espectrais sob o aveludado da casca,


trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres


com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro


fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,


sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.


E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito


lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.


Nem houve testemunha.



Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.


Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?


Se morro de amor, todos o ignoram


e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.


O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;


não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória


das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,


perdida no ar, por que melhor se conserve,


uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.




Alma ausente


Garcia Lorca


Não te conhece o touro ou a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino ou a tarde,
porque tu morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
nem o cetim negro onde tu te destroças.
Não te conhece tua lembrança muda
porque tu morreste para sempre.

O Outono chegará com búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá olhar teus olhos
porque tu morreste para sempre.

Porque tu morreste para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem,
num monte enorme de cães apagados.

Não te conhece ninguém. Não. Porém, eu canto-te.
Canto para depois teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo a nascer, se nascer,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto sua elegância com palavras que gemem
e lembro uma brisa triste entre as oliveiras.








quarta-feira, 7 de novembro de 2007

canto escuro onde me conforto


Sempre falo que não há nada melhor do que sair de casa, estar longe da família, viver, enfim, sob a própria lei. Alguns me ouvem falar isso e acham um horror. Talvez lendo isso agora certamente discordarão e eu acho ótimo que discordem porque isso só me faz pensar em como argumentar a meu favor e defender essa idéia.

Saí de casa aos 14 anos, quase 15, um ET, um bobo, que sempre esteve ligado teluricamente a casa, aos quartos, às pessoas, aos livros, às sombras projetadas nas paredes no final da tarde e às músicas do rock inglês que tomavam conta do Brasil nos anos 80. Certamente era um ingênuo que não sabia muita coisa do que fazer no futuro e comodamente contente pela segurança de ter pai, mãe, irmãs e uma leva de pessoas que, cada uma ao seu modo, me garantiam o equilíbrio de estarem por perto, para tudo.

Não havia crise de modo algum, a não ser aquelas bobas, típicas dos adolescentes em fim de infância, o que, para mim, hoje, me faz ver como eu era um incomum dentro do universo dos comuns: gordo, míope, tímido e instrospectivo, um erro, sob vários aspectos, inclusive, e sobretudo, os práticos. Daí que, para mim, ir embora, ou melhor, ter que ir a uma terra estranha, longe desse universo de equilíbrio e paz, seria como ganhar um doce cuja embalagem era sedutoramente linda mas o gosto poderia ser ambíguo: ora prazerosamente doce, ora surpreendente pelo fel que podia vir.

Ainda assim, achei aquilo importante. Estar longe de casa me fez, de fato, sair das ilusões bobas que nos dão uma certa segurança, as mesmas que nos fazem achar que podemos contar com todos a qualquer hora. Afora o fato de que nem sempre há pessoas dispostas a te ouvir, ainda vem junto aquele desejo de que as coisas mudem ou que mais vale ter um mundo todo a provar do que ficar no canto quente e escuro e cheio de conforto que a casa paterna/materna nos traz. A contragosto talvez, optei pela segunda, se é que alguém que não sabe nem para onde ir pode optar. Ainda hoje sinto falta dos manuais com o Know-How de como viver sem buscar sentido em tudo.Nessa época então...só sabia ler coisas esparsas, ir às bibliotecas e me jogar no abismo da dúvida.

Falando assim mais parece que defendo o oposto do que falei acima. Mas não. Continuo a defender a fuga, a ausência, o distanciamento dos pais e da segurança familiar. Estando longe, aprende-se mais rápido a lidar sozinho como coisas tão simples, como escolher uma camisa, a saber qual o melhor remédio quando se está doente, mais de solidão que qualquer outra coisa. Quem morou ou mora longe de casa, sabe do que falo.

Em fevereiro de 2008 faz 20 anos que me mandei. Não atribuo valores simbólicos a esse número, a não ser aquilo que é óbvio e que se mostra na minha cara e no que fiz de lá para cá. Apesar da distância, sempre me parece muito perto e muito pouco tempo. Quando volto à casa de meus pais, já homem feito e sem tantas esperanças de quando saí de lá, não olho e nem lembro do passado, uma vez que, como já falei aqui, não sou saudosista, mas é como se ali fosse o canto escuro onde me conforto, sempre presente e seguro para quando eu voltar, nem que seja por alguns momentos ou dias, afinal o mundo ainda está todo aberto às descobertas.

sábado, 8 de setembro de 2007

minha sensibilidade às vezes tão perigosamente solta


Fazia um tempo que não postava nada aqui, não por falta de tempo, afinal quando a gente deseja fazer algo nada nos impede, mas por ter pensado em escrever sobre temas que, por um outro motivo, não nasciam, aliás ainda não nasceram, estão em fase de gestação ou morte prematura, quem sabe. Como não gosto de forçar seu surgimento,fiquei no aguardo.

Eles, um dia, virão.

Mas esta semana, há 3 dias quase exatos, passei por uma experiência a qual, para muitos, será uma grande bobagem. Para mim, que tenho passado dias dividido entre a realidade prática e o mundo da subjetividade angustiada, foi algo tão forte, por sua simplicidade inesperada, que demorei um tempo ainda vendo o mundo sob aquele signo ou aquela sensação. Vou tentar transmitir aqui o que foi tal experiência e cada um que a julgue, ou me julgue.

Na quinta-feira fui aplicar um questionário em uma escola de EJA ( Educação de Jovens e Adultos). Ele continha 17 perguntas divididas entre o que os alunos gostam de ler ou escrever ou o que eles necessitam nestes dois campos. O objetivo era simples ao aplicar tal questionário: saber quem são eles e suas dificuldades no campo da escrita e da leitura.

Depois de aplicá-lo à turma da tarde, saí da escola com uma vaga sensação de decepção e espanto por ter sido recebido por um grupo apático de pós adolescentes e outros nem tão adolescentes assim, intuindo que dali não sairia muita coisa.Voltei à noite para executar o mesmo trabalho, agora com uma turma de pessoas para quem a adolescência, se existiu, estava tão longe que era como nunca tê-la vivido.

Outro espanto se deu, mas pela receptividade de todos e pela aceitação em preencher as perguntas, ainda que muitas não lhes fossem tão claras. Por causa disto, uma senhora, de fala calma, mas vigorosa, perguntou sobre uma questão específica que tratava de textos que eles haviam lido em suas vidas escolares e que lhes marcaram, ao que eu respondi se tratando do que lhes marcou como escrita ou leitura, especificamente.

Um homem, já feito, muito bonachão, falou entre risos que nunca esquecera o poema do “pato aqui / pato acolá”. O poema é de Vinícius, ele lembrava, O Pato, muito famoso nos anos 80, época que certamente ele era tão garoto quanto eu.

Ao responder a ele fui chamado por ela para falar que ela foi marcada por 2 poemas os quais ela só lembrava partes, pedaços, e ela de pronto falou; “ tenho duas mãos e o sentimento do mundo” e outro, ela falou com uma simplicidade muito natural, era o que falava que o homem “ comeu como um príncipe” e que havia beijado sua mulher como se fosse a última.

Tremi. Era como se um tecido muito firme que compõe a realidade tão dura dessas pessoas fosse rompido de leve por uma força, a da palavra poética. Sem ela saber, suas palavras derrubaram os teóricos sisudos da literatura que muitas vezes insistem em transformar o milagre da poesia em tratados chatíssimos sobre o fazer poético ou de como ele ( o fazer poético ) atua nas pessoas.

O que ela me deu ali foi a prova clara e viva de como a poesia atua nas pessoas, de modo misterioso, mas marcante, a tal ponto de fazê-las lembrar desses lampejos que elas sentiram e não sabiam explicar. Este lampejo toquei com as mãos ali mesmo, na sala de aula, em meio a pessoas já cansadas do trabalho diário e de suas vidas não tão fáceis, e guardei comigo, secretamente, quase em lágrima de franca emoção.

Comentei depois com um amigo o quanto aquilo foi grandioso, afinal Drummond, o autor do poema do Sentimento do Mundo, ou Chico Buarque, autor de Construção, na qual se fala do operário que come como um príncipe e morre atrapalhando o trânsito, como ela bem lembrou em sala, certamente ficariam felizes em saber que seus versos não só tocaram mas atravessaram a vida das pessoas.

Com isso tudo, lembro de uma teoria a qual fala que a realidade é formada por fenômenos os quais, para apreendê-los em sua essência, se faz necessário fazer-lhe uma “redução” ou suspensão. Para não matar a poesia, vou sintetizar a teoria: apreender o fenômeno das coisas equivale a observar essas coisas isentas de suas vinculações, sejam afetivas, estéticas ou quais sejam. Talvez assim, o fenômeno, que nos é dado em oferta de inteireza, atinge nossa subjetividade e, nesse encontro, nasce o sentido daquilo que é mais puro, expondo o ser de cada coisa.

Não é fácil atingir o fenômeno em si, mas há meios. Um deles é a palavra, sem enganos, pura. Outro meio é a palavra, ainda, mas carregada de força poética. Um filósofo alemão (não digo o nome porque não interessa aqui) afirmava que só através da poesia essa tal essência dos fenômenos poderia vir. Não o nego, só o afirmo, aliás, eu não, mas aquela senhora, tão longe das salas carregadas de senhores molhados de discurso vaidoso sobre teorias filosóficas, oscilando entre a fala marcada pelo egocentrismo tão comum ao meio acadêmico e à construção do conhecimento.

Esta mulher, tão simples em sua noção ingênua sobre a recepção do dizer da poesia, atingiu o fenômeno sem o conhecer e, sem saber, me fez sair de vez dessa realidade prática, a qual me referi acima, e vivenciar o limite entre estar preso na concretude do mundo e ser tocado por ele na minha sensibilidade às vezes tão perigosamente solta.

O resultado disso é que viajei ontem para rever minha família e minha casa de origem me emocionando com tudo o que lia, desde a entrevista de Vinícius a Clarice até um texto da revista Bravo no qual o cineasta João Moreira Salles ( irmão de Walter “Central do Brasil” Salles) falava sobre a inutilidade da poesia sobre o mundo cada vez mais acelerado e utilitarista que vivemos.

Sempre achei que a arte fosse assim mesmo, inútil, e fiquei contente em ler isso e constatar que outros pensam igual, inclusive aquele poeta que não conheço bem e que foi citado por Salles, o W H Auden o qual fala que “ a poesia não faz nada acontecer”. Achei e ainda acho que a poesia é e será sempre a ferramenta do inútil e será grandiosa exatamente por ser assim. Se ela fosse utilitária, se fosse prática, usável, seria menor. No entanto, sua função é revelar a grandeza, seja lá o que isso for, e para tal, não há regras nem definições.

As regras e as definições quem as cria são os teóricos, os críticos, os vaidosos. Quem bebe do néctar da poesia é aquele que, sem saber como, a compreende, isenta de saber se ela lhe matará a fome ou a ajudará a solucionar o um problema matemático.

Há três dias foi me dada essa pureza das sensações de modo secreto, como se o fenômeno enfim se tornasse o é da coisa em si, e tal bondade em me dar isso ainda ressoa. Pena que as palavras aqui sejam inúteis, pois essa sensação é só minha e cada um a vivencia de modo diferente. Mas compreendi, mais uma vez, que, no tecido às vezes áspero disso que chamamos realidade, há rasgos de grandeza. Milagres acontecem, mensagens soam. E fico solitariamente feliz em saber que estou vivo.

Para quem não lembra, vou postar aqui o poema de Drummond:



Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transigena confluência do amor.

Quando me levantar,
o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,
humildemente vos peço que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados ao amanhecer
esse amanhecer mais noite que a noite.