quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Drummond, Lorca, um sentimento




Esta semana está sendo atípica. Viajei, aliás tenho viajado muito, e para lugares díspares, e nesta última viagem obrigatoriamente tive que me envolver em leituras, análises e interpretações de poetas. Ou seja, voltei minha vida por uns dias exclusivamente para a poesia e sua função ou, num sentido mais amplo, voltei meus olhos míopes para o fenômeno literário, segundo alguns teóricos. Afora o caráter por vezes áspero que a técnica pede, esta volta, esta ação soou como uma retomada.

Reli poetas e redescobri outros, mas, dos tantos que li, 2 me chamaram a atenção sobre sua voz: um é Drummond, o outro Lorca.

De Drummond, vi Adélia Prado, mineira como ele, ler, emocionada, um poema feito por ele chamado Tarde de Maio. Ela não se conteve na leitura e chorou sem terminá-lo. O outro que li,o de Lorca, descobri ao acaso, selecionando textos dele.

Lorca não foi só um grande poeta, mas também um autor de textos dramáticos fortes, cheios de imagens que ressoam no nosso inconsciente ( se é coletivo, só Jung nos salva na resposta). Mas o que destaco aqui é um poema seu, cujo título é Alma Ausente.

Ambos os poemas, ainda que com tratamentso distintos de suas imagens, falam de coisas comuns: a perda, a falta, a solidão causada pela vontade de preenchimento, tudo isso ecoado por uma voz de resignação quase trágica, mas altiva.

Nesses dias em que me retraí só no universo da poesia, onde a falta e o fim prenunciado de coisas que talvez nunca nasceram, tais poemas me falaram mais que antes, mais que agora, mais que nunca.Ei-los:




TARDE DE MAIO




Carlos Drummond



Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de [seus mortos,


assim te levo comigo, tarde de maio,


quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,


outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,


surdamente lavrava sob meus traços cômicos,


e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes


e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma


nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza


sem fruto.





Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,


colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.


Eu nada te peço a ti, tarde de maio,


senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,


sinal de derrota que se vai consumindo a ponto


de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém


que, precisamente, volve o rosto, e passa…


Outono é a estação em que ocorrem tais crises,


e em maio, tantas vezes, morremos.



Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,


já então espectrais sob o aveludado da casca,


trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres


com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro


fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,


sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.


E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito


lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.


Nem houve testemunha.



Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.


Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?


Se morro de amor, todos o ignoram


e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.


O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;


não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória


das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,


perdida no ar, por que melhor se conserve,


uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.




Alma ausente


Garcia Lorca


Não te conhece o touro ou a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino ou a tarde,
porque tu morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
nem o cetim negro onde tu te destroças.
Não te conhece tua lembrança muda
porque tu morreste para sempre.

O Outono chegará com búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá olhar teus olhos
porque tu morreste para sempre.

Porque tu morreste para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem,
num monte enorme de cães apagados.

Não te conhece ninguém. Não. Porém, eu canto-te.
Canto para depois teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo a nascer, se nascer,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto sua elegância com palavras que gemem
e lembro uma brisa triste entre as oliveiras.








quarta-feira, 7 de novembro de 2007

canto escuro onde me conforto


Sempre falo que não há nada melhor do que sair de casa, estar longe da família, viver, enfim, sob a própria lei. Alguns me ouvem falar isso e acham um horror. Talvez lendo isso agora certamente discordarão e eu acho ótimo que discordem porque isso só me faz pensar em como argumentar a meu favor e defender essa idéia.

Saí de casa aos 14 anos, quase 15, um ET, um bobo, que sempre esteve ligado teluricamente a casa, aos quartos, às pessoas, aos livros, às sombras projetadas nas paredes no final da tarde e às músicas do rock inglês que tomavam conta do Brasil nos anos 80. Certamente era um ingênuo que não sabia muita coisa do que fazer no futuro e comodamente contente pela segurança de ter pai, mãe, irmãs e uma leva de pessoas que, cada uma ao seu modo, me garantiam o equilíbrio de estarem por perto, para tudo.

Não havia crise de modo algum, a não ser aquelas bobas, típicas dos adolescentes em fim de infância, o que, para mim, hoje, me faz ver como eu era um incomum dentro do universo dos comuns: gordo, míope, tímido e instrospectivo, um erro, sob vários aspectos, inclusive, e sobretudo, os práticos. Daí que, para mim, ir embora, ou melhor, ter que ir a uma terra estranha, longe desse universo de equilíbrio e paz, seria como ganhar um doce cuja embalagem era sedutoramente linda mas o gosto poderia ser ambíguo: ora prazerosamente doce, ora surpreendente pelo fel que podia vir.

Ainda assim, achei aquilo importante. Estar longe de casa me fez, de fato, sair das ilusões bobas que nos dão uma certa segurança, as mesmas que nos fazem achar que podemos contar com todos a qualquer hora. Afora o fato de que nem sempre há pessoas dispostas a te ouvir, ainda vem junto aquele desejo de que as coisas mudem ou que mais vale ter um mundo todo a provar do que ficar no canto quente e escuro e cheio de conforto que a casa paterna/materna nos traz. A contragosto talvez, optei pela segunda, se é que alguém que não sabe nem para onde ir pode optar. Ainda hoje sinto falta dos manuais com o Know-How de como viver sem buscar sentido em tudo.Nessa época então...só sabia ler coisas esparsas, ir às bibliotecas e me jogar no abismo da dúvida.

Falando assim mais parece que defendo o oposto do que falei acima. Mas não. Continuo a defender a fuga, a ausência, o distanciamento dos pais e da segurança familiar. Estando longe, aprende-se mais rápido a lidar sozinho como coisas tão simples, como escolher uma camisa, a saber qual o melhor remédio quando se está doente, mais de solidão que qualquer outra coisa. Quem morou ou mora longe de casa, sabe do que falo.

Em fevereiro de 2008 faz 20 anos que me mandei. Não atribuo valores simbólicos a esse número, a não ser aquilo que é óbvio e que se mostra na minha cara e no que fiz de lá para cá. Apesar da distância, sempre me parece muito perto e muito pouco tempo. Quando volto à casa de meus pais, já homem feito e sem tantas esperanças de quando saí de lá, não olho e nem lembro do passado, uma vez que, como já falei aqui, não sou saudosista, mas é como se ali fosse o canto escuro onde me conforto, sempre presente e seguro para quando eu voltar, nem que seja por alguns momentos ou dias, afinal o mundo ainda está todo aberto às descobertas.

sábado, 8 de setembro de 2007

minha sensibilidade às vezes tão perigosamente solta


Fazia um tempo que não postava nada aqui, não por falta de tempo, afinal quando a gente deseja fazer algo nada nos impede, mas por ter pensado em escrever sobre temas que, por um outro motivo, não nasciam, aliás ainda não nasceram, estão em fase de gestação ou morte prematura, quem sabe. Como não gosto de forçar seu surgimento,fiquei no aguardo.

Eles, um dia, virão.

Mas esta semana, há 3 dias quase exatos, passei por uma experiência a qual, para muitos, será uma grande bobagem. Para mim, que tenho passado dias dividido entre a realidade prática e o mundo da subjetividade angustiada, foi algo tão forte, por sua simplicidade inesperada, que demorei um tempo ainda vendo o mundo sob aquele signo ou aquela sensação. Vou tentar transmitir aqui o que foi tal experiência e cada um que a julgue, ou me julgue.

Na quinta-feira fui aplicar um questionário em uma escola de EJA ( Educação de Jovens e Adultos). Ele continha 17 perguntas divididas entre o que os alunos gostam de ler ou escrever ou o que eles necessitam nestes dois campos. O objetivo era simples ao aplicar tal questionário: saber quem são eles e suas dificuldades no campo da escrita e da leitura.

Depois de aplicá-lo à turma da tarde, saí da escola com uma vaga sensação de decepção e espanto por ter sido recebido por um grupo apático de pós adolescentes e outros nem tão adolescentes assim, intuindo que dali não sairia muita coisa.Voltei à noite para executar o mesmo trabalho, agora com uma turma de pessoas para quem a adolescência, se existiu, estava tão longe que era como nunca tê-la vivido.

Outro espanto se deu, mas pela receptividade de todos e pela aceitação em preencher as perguntas, ainda que muitas não lhes fossem tão claras. Por causa disto, uma senhora, de fala calma, mas vigorosa, perguntou sobre uma questão específica que tratava de textos que eles haviam lido em suas vidas escolares e que lhes marcaram, ao que eu respondi se tratando do que lhes marcou como escrita ou leitura, especificamente.

Um homem, já feito, muito bonachão, falou entre risos que nunca esquecera o poema do “pato aqui / pato acolá”. O poema é de Vinícius, ele lembrava, O Pato, muito famoso nos anos 80, época que certamente ele era tão garoto quanto eu.

Ao responder a ele fui chamado por ela para falar que ela foi marcada por 2 poemas os quais ela só lembrava partes, pedaços, e ela de pronto falou; “ tenho duas mãos e o sentimento do mundo” e outro, ela falou com uma simplicidade muito natural, era o que falava que o homem “ comeu como um príncipe” e que havia beijado sua mulher como se fosse a última.

Tremi. Era como se um tecido muito firme que compõe a realidade tão dura dessas pessoas fosse rompido de leve por uma força, a da palavra poética. Sem ela saber, suas palavras derrubaram os teóricos sisudos da literatura que muitas vezes insistem em transformar o milagre da poesia em tratados chatíssimos sobre o fazer poético ou de como ele ( o fazer poético ) atua nas pessoas.

O que ela me deu ali foi a prova clara e viva de como a poesia atua nas pessoas, de modo misterioso, mas marcante, a tal ponto de fazê-las lembrar desses lampejos que elas sentiram e não sabiam explicar. Este lampejo toquei com as mãos ali mesmo, na sala de aula, em meio a pessoas já cansadas do trabalho diário e de suas vidas não tão fáceis, e guardei comigo, secretamente, quase em lágrima de franca emoção.

Comentei depois com um amigo o quanto aquilo foi grandioso, afinal Drummond, o autor do poema do Sentimento do Mundo, ou Chico Buarque, autor de Construção, na qual se fala do operário que come como um príncipe e morre atrapalhando o trânsito, como ela bem lembrou em sala, certamente ficariam felizes em saber que seus versos não só tocaram mas atravessaram a vida das pessoas.

Com isso tudo, lembro de uma teoria a qual fala que a realidade é formada por fenômenos os quais, para apreendê-los em sua essência, se faz necessário fazer-lhe uma “redução” ou suspensão. Para não matar a poesia, vou sintetizar a teoria: apreender o fenômeno das coisas equivale a observar essas coisas isentas de suas vinculações, sejam afetivas, estéticas ou quais sejam. Talvez assim, o fenômeno, que nos é dado em oferta de inteireza, atinge nossa subjetividade e, nesse encontro, nasce o sentido daquilo que é mais puro, expondo o ser de cada coisa.

Não é fácil atingir o fenômeno em si, mas há meios. Um deles é a palavra, sem enganos, pura. Outro meio é a palavra, ainda, mas carregada de força poética. Um filósofo alemão (não digo o nome porque não interessa aqui) afirmava que só através da poesia essa tal essência dos fenômenos poderia vir. Não o nego, só o afirmo, aliás, eu não, mas aquela senhora, tão longe das salas carregadas de senhores molhados de discurso vaidoso sobre teorias filosóficas, oscilando entre a fala marcada pelo egocentrismo tão comum ao meio acadêmico e à construção do conhecimento.

Esta mulher, tão simples em sua noção ingênua sobre a recepção do dizer da poesia, atingiu o fenômeno sem o conhecer e, sem saber, me fez sair de vez dessa realidade prática, a qual me referi acima, e vivenciar o limite entre estar preso na concretude do mundo e ser tocado por ele na minha sensibilidade às vezes tão perigosamente solta.

O resultado disso é que viajei ontem para rever minha família e minha casa de origem me emocionando com tudo o que lia, desde a entrevista de Vinícius a Clarice até um texto da revista Bravo no qual o cineasta João Moreira Salles ( irmão de Walter “Central do Brasil” Salles) falava sobre a inutilidade da poesia sobre o mundo cada vez mais acelerado e utilitarista que vivemos.

Sempre achei que a arte fosse assim mesmo, inútil, e fiquei contente em ler isso e constatar que outros pensam igual, inclusive aquele poeta que não conheço bem e que foi citado por Salles, o W H Auden o qual fala que “ a poesia não faz nada acontecer”. Achei e ainda acho que a poesia é e será sempre a ferramenta do inútil e será grandiosa exatamente por ser assim. Se ela fosse utilitária, se fosse prática, usável, seria menor. No entanto, sua função é revelar a grandeza, seja lá o que isso for, e para tal, não há regras nem definições.

As regras e as definições quem as cria são os teóricos, os críticos, os vaidosos. Quem bebe do néctar da poesia é aquele que, sem saber como, a compreende, isenta de saber se ela lhe matará a fome ou a ajudará a solucionar o um problema matemático.

Há três dias foi me dada essa pureza das sensações de modo secreto, como se o fenômeno enfim se tornasse o é da coisa em si, e tal bondade em me dar isso ainda ressoa. Pena que as palavras aqui sejam inúteis, pois essa sensação é só minha e cada um a vivencia de modo diferente. Mas compreendi, mais uma vez, que, no tecido às vezes áspero disso que chamamos realidade, há rasgos de grandeza. Milagres acontecem, mensagens soam. E fico solitariamente feliz em saber que estou vivo.

Para quem não lembra, vou postar aqui o poema de Drummond:



Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transigena confluência do amor.

Quando me levantar,
o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,
humildemente vos peço que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados ao amanhecer
esse amanhecer mais noite que a noite.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

"A doçura que fascina e o prazer que mata"

mallarmé

baudelaire

Há poetas que só bastariam ter escrito um poema e isso já seria o suficiente para justificar suas grandezas.

Mas muitos, não contentes, resolvem fazer uma obra inteira e marcar definitivamente a Literatura.

Selecionei dois poemas que gosto muito de dois grandes poetas franceses do fim do seculo 19 os quais redefiniram o que seria a poesia, o poema e a sensibilidade modernas.

Não há muito o que falar, só ler e se deixar levar pelas vozes desses poetas e suas imagens cheias de símbolos.

A uma passante
Baudelaire
A rua ensurdecedora urrava ao meu redor
Alta e esbelta, toda de luto, majestosa na dor,
Uma mulher passou, a mão vaidosa
Erguendo, balançando a bainha e o festão.
Ágil e nobre, com pernas de estátua.
Eu, crispado como um extravagante, bebia
No seu olho, lívido céu que gera o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.
Um clarão... e a noite depois! - Fugidia beleza,
De olhar que me fez renascer,
Será que só te verei de novo na eternidade?
Tão longe daqui! Tão tarde! Talvez nunca!
Pois ignoro para onde vais e não sabes para onde vou.
Ó tu que eu teria amado, ó tu que sabias disso.



Brisa Marinha

Mallarmé

A carne é triste, e eu li todos os livros, todos.
Fugir! além! Eu sei que há pássaros já doudos
Por se ver entre os céus e a espuma do alto-mar!
Nada, nem os jardins refletidos no olhar,
Retém meu coração que já no mar se aninha.
Nem, ó noites, a luz da lâmpada sozinha
Sobre o papel vazio, intangível de brilho,
E nem a mulher moça amamentando o filho.
Hei de partir! Vapor de mastros oscilantes,
Ergue a âncora para regiões extravagantes!
Um Tédio desolado, entre anseios intensos,
Ainda acredita no supremo adeus dos lenços!
E esses mastros, talvez, cheios de maus presságios,
São dos que um vento faz vergar sobre os naufrágios
Sem ilhas férteis e sem mastros de veleiros...
Mas, ó minha alma, ouve a canção dos marinheiros!

Em breve, posto mais poemas de duas poetas brasileiras.





sábado, 18 de agosto de 2007

trilha sonora dos dias

johnny cash

jeff buckley

Recebi um cd esta semana, que eu aguardava há muito tempo, de um rapazinho chamado Chris Garneau. Ele lançou um disco leve, melódico, com presença de um piano que se casa de modo perfeito à sua voz. O rapaz é de Nova York e lançou este disco em 2006. O disco se chama Music for tourists. Ouçam-no, de preferência quando estiverem entre o fazer nada e algo que não tire a atenção.

Alguns o chamam de melancólico, o disco, pois as músicas são todas mais lentas. Para evitar que me chamem de deprimido, prefiro não fazer comentários sobre o tipo de música que este rapaz faz. Sugiro apenas que ouçam Refief e vejam o clip desta canção. Muito bons.

Tenho ouvido tanta coisa esses dias, algumas que descubro na curiosidade do que leio, outras porque amigos me falam. O fato é que algumas músicas chegam e ficam por dias “fritando”, como se dizia antigamente quando a gente punha um LP no Toca-Discos. Quem está, por assim dizer, “fritando” no PC, no som de casa, no mp4 são, além do Garneau, Jeff Buckley, Rufus Wainwright e Johnny Cash. Dos três, talvez este último seja o mais conhecido, até porque foi lançado um filme sobre sua vida chamado Johnny and June, que eu não vi.

Dono de uma voz potente, grave, Johnny Cash é mais identificado como cantor de country, mas como conheço pouco sua obra, o que posso dizer é que, do que tenho ouvido até agora, ele superou essa definição. O modo como ele diz as palavras, o timbre marcante e o jeito de interpretar as canções me fizeram perceber que ele vai além desse gênero. Bom, mas isso é só a impressão de quem conhece pouco, quase nada. De qualquer modo, procurem ouvir Hurt, uma versão de uma música do Nine Inch Nails, ou a versão que ele fez de One, do U2, e vocês entenderão o que falo. Aliás, o U2 teve a participação de Cash na última faixa de Zooropa.

Jeff Buckley eu já havia ouvido há algum tempo. De cara tinha gostado da versão de Hallelljuja, de Leonard Cohen, que ele havia feito, mas nunca tinha parado para ouvir o disco dele, por inteiro. Só esses dias acabei por ouvi-lo e, enfim, o descobri.

A história desse rapaz é bem trágica. Filho de Tim Buckley ( conhecido cantor de folk nos EUA), ele queria se tornar um grande guitarrista e não um cantor, como o pai, segundo li para que ele tivesse autonomia sobre sua carreira e evitar as velhas comparações entre filhos de cantores e seus pais famosos. O fato é que ele acabou cantando e chamando atenção pela beleza de sua voz.

Para encurtar o texto, ele lançou um disco em 1994, chamado Grace, que não fez tanto sucesso, por não ser tão comercial que tocasse nas rádios mais pop, nem tão alternativo que tocasse nas independentes. De qualquer modo, chamou a atenção da crítica e de um público o qual se tornou maior depois que este rapaz morreu, aos 31 anos, quando ia encontrar sua banda para fazer seu segundo disco.

Mas, tragédias à parte, ouçam o disco. Há músicas lindas, como a que dá título ao disco, a que me referi acima, de Leonard Cohen, e outras onde a gente pode perceber melhor a beleza e o alcance da voz desse rapaz, como Lilac Wine e Corpus Christi Carol. Há versões que ele, e que estão soltas na NET, para canções bem diferentes, que vão de Smiths ( I know it’s over) a Bob Dylan ( If you see her, say hello). Ouçam-nas também.

Gilberto Freyre disse, certa vez, aliás isso está gravado e sampleado no disco do DJ Dolores, que ele era “o mais contraditório dos homens”. Pois bem, me coloco na frase do sociólogo. Falo isso porque, há muitos anos, quando ainda morava em Recife, via clips de Rufus Wainwright na MTV e achava enfadonhas sua voz e sua música. Nunca ia até o final do clip ou da música. Aquilo simplesmente me irritava.

Pois bem, este ano li uma resenha sobre o novo disco deste rapaz e resolvi baixá-lo para ver o que era. Toquei algumas vezes e não ouvi nada inteiro. Mas eis que um dia, ao acaso, bato o olho na lista das músicas e, aleatoriamente, escolho uma chamada Going to a town. Chapei. Achei perfeitas a melodia, a voz e o jeito desencantado dele cantá-la.

Aquela canção parecia ser a trilha sonora dos dias que eu estava vivendo, entre a tristeza e a euforia (segundo os psicanalistas, a mania) e foi quem me conduziu às demais da lista. Fui descobrindo cada uma aos poucos e fui, cada vez mais, me entusiasmando por elas. Resultado: comprei o disco. Baixei outras coisas dele também, inclusive uma música que ele fez em homenagem ao Jeff Buckley, chamada Memphis Skyline, e outra,Old whore’s diet, em dueto com o Antony Hegart.

Quem puder, ou quem quiser, ou quem se interessar, ouça o novo disco dele, Release the stars. Essa frase, que dá título ao disco, está presente na faixa que fecha o CD cujas metáforas caem bem para quem ainda se apega a vãs esperanças, mesmo estando no meio do caminho entre os 30-e-alguma e os 40-e-vou-pra-lá.

E se puderem vejam o clip de Going to a town. Esse vídeo, de aparência simples, guarda alguns signos que vão desde as parcas, donas do destino (observem as mulheres vestidas de preto), até Jesus Cristo. Achei tudo sutilmente exagerado, dramático, quase trágico. Mas a música desse menino é assim mesmo. Ouçam-na, ou melhor, ouçam-nos.









quarta-feira, 15 de agosto de 2007

about suicide girls


Ana Cristina Cesar
Sylvia Plath


"aquilo que se torna perfeito, inteiramente maduro, quer morrer"
(Nietzsche)

Semana passada soube que havia sido apresentada uma peça aqui, por um projeto do SENAC, chamada Psicose. De início não dei muita importância, pois pensei que se tratasse de algum texto experimental com performances assustadoras, em todas as possibilidades de significado que isso possa ter.

Depois, um conhecido comentou que o texto era de uma autora que se suicidou. De cara pensei em Sylvia Plath, mas não lembrava de nada que ela tivesse escrito como texto dramático. Só ontem descobri que, de fato não era dela, mas de outra autora, inglesa, tão angustiada quanto, chamada Sarah Kane.

Sobre esta última sei quase nada além do que as resenhas de cadernos culturais falam e lamento não ter ido ver a interpretação do grupo que apresentou seu texto aqui, pois, além do que soube, de cenas polêmicas e chocantes, suponho que o texto, pelo que já li nestes mesmos cadernos, já se suporta como elemento de densidade dramática. Lembro que esta mesma peça foi encenada no Brasil, no sudeste do país, por Isabelle Hupert e que as entradas estavam esgotadas.

Literatura e morte parecem ter se tocado em várias épocas. Essa frase, escrita assim, parece óbvia e, de fato, é, mas como tudo que é óbvio guarda uma verdade gasta, prefiro reafirmar que a morte não muda, a literatura, como essência, também não, mas as formas de uma ser vista e outra se expressar certamente sim.

Estar morto, morrer, pensar na morte ou matar-se causaram a angústia, o desejo ou a escrita de grandes escritores e que foram grandes sobretudo porque souberam tratar deste tema com focos ora reais demais, ora poéticos, ora poeticamente lúcidos. O fato é que não é a morte como tema que nos chama a atenção em certos autores, como a escritora inglesa que quase nada sei, mas o modo como ela a apresenta.

Lembro agora de um belo livro de Hilda Hilst chamado Da Morte Odes Mínimas, no qual ela inventa vários nomes para a morte, assim como ela inventava para Deus, e a contempla entre o susto e o fascínio. Mas Hilda Hilst não quis morrer ou pelo menos no sentido do desejo de não se adaptar à vida e escapar pelos caminhos do vago. Sua literatura, de uma grandeza ímpar, se lançou a outros temas tão intensos quanto esse, mas não se aliou a sua existência como um reflexo de sua morte.

Ao que parece em Sarah Kane sim, assim como em Sylvia Plath e outra, esta brasileira, musa de uma geração, chamada Ana Cristina César ou Ana C.

Sylvia Plath era de origem americana, mas morou vários anos na Inglaterra. Foi casada com um poeta, muito respeitado como tal, chamado Ted Hughes. Ao que parece, ou pelo que nos dá a entender, a poesia dela foi ofuscada pela do marido e suponho que não por ela ter menos talento ou por haver uma competição entre ambos, mas talvez, e realço aqui essa dúvida, por ela precisar morrer para enfim ser vista, o que não deixa de resultar num belo paradoxo.

O fato, porém, é que, em seus versos, temas como solidão, angústia, perda e, óbvio, a morte escorrem de modo áspero e ,por vezes, tenso, realçando uma voz que ecoa um forte sofrimento sempre apoiada por uma estrutura lírica que só o tempo realçou a beleza.Se essas últimas palavras pareceram exageradas, leiam o poema Lady Lazarus e saberão o que falo, ainda mais se ele for lido em voz alta, de preferência no original, onde, em um certo verso, ela diz:

“ Dying
Is an art, like everything else
I do it exceptionally well “

Fazendo uma analogia com o personagem bíblico Lázaro, o qual foi ressuscitado por Cristo, este poema a apresenta como a que tentou várias vezes acabar com a própria vida, mas que sempre retornava. As imagens mostradas, o ritmo e, óbvio, o tema da morte que beira a pele e esvazia o corpo estão ali, assustadoramente estruturadas, como se fosse um foco em close no rosto de quem colou-se ao desespero de modo débil e não sabe como sair dele. Este poema fez parte de uma obra, chamada Ariel, lançada dois anos depois de sua morte, que aconteceu em 1963. Não conto como isso se deu porque isto não importa aqui.

O que importa, sim, é sabermos que a Literatura, como falei acima, muitas vezes usa recursos para falar de temas como a morte de modo a nos levar a outros terrenos de percepção. No caso de Plath, se a poesia expressa a angústia da morte (ou seria da vida?), um livro semi-autobiográfico, seu único romance, expõe a narrativa da morte de uma pessoa, ou melhor, da sanidade de uma pessoa. A pessoa, no caso, é a própria Sylvia.

Este romance, chamado A redoma de vidro ( The bell jar) foi lançado em 1963 e expõe, com uma minúcia claustrofóbica, como uma típica moça americana dos anos 50, por não se sentir adaptada ao ambiente que vive, e, sobretudo, por não saber como reagir às pequenas violências do cotidiano, vai se deteriorando rumo à solidão, ao vazio e, por fim, à falta de sentido em tudo o que está a sua volta.

De que isto resulta? Numa tentativa de suicídio (que aqui não é apenas coincidência entre a autora e a personagem) e num tratamento de “cura” psiquiátrica na qual os eletrochoques são apenas um traço sutil diante dos excessos pelos quais a personagem passa para voltar à sua vida, por assim dizer, normal.Lançado inicialmente sob pseudônimo, esta obra logo se tornou um clássico da literatura moderna e, interpretação minha, assusta-nos por sua franqueza e linguagem objetivas.

Curiosamente, Ana C, a poeta brasileira que falei no início do texto, traduziu poemas de Sylvia Plath. Não gosto de fazer analogias entre tragédias ou conquistas porque isso é bobagem, mas aqui parece soar até natural entre essas duas suicide girls, não só pelo fim trágico que deram às suas vidas, mas também pelo talento de ambas para construir uma obra pequena, mas de iluminada singularidade literária.

Ana C era, além de tudo o que falei no parágrafo anterior, uma mulher linda. Admirada pelos colegas e professores do curso de Letras, era de uma sensibilidade e uma inteligência as quais se refletiram na sua poesia e no contato com as pessoas. Ela escreveu apenas três obras, lançadas ainda em vida: Cenas de Abril, Correspondência Completa e A teus pés. Após sua morte, foi lançado Inéditos e dispersos.

Não se pode afirmar que a morte, ou sua contemplação, se torne mais bonita no universo literário, mas o modo como essas mulheres tratam a palavra e os temas que elas elegem, nos fazem pensar o quanto o transitório é um signo cuja regência nos habita e talvez só a palavra nos salve, ou nos eternize. No caso delas, morrer é estar vivo perpetuamente, seja nas imagens dos versos, seja no espanto de lucidez de quem salta do muito alto com a certeza de que o que virá não tem volta.




terça-feira, 7 de agosto de 2007

Meu narcisismo exagerado


"é que Narciso acha feio o que não é espelho" ( Caetano Veloso )


Uma moça, muito inteligente, estudante de Psicologia, ao ler um texto meu escrito aqui, me falou que ficou impressionada como falo de mim neste blog. Bom, talvez eu não tenha lido o Manual de como usar Blogs, mas imagino que eles sirvam para, entre outras coisas, falarmos de nossas impressões, repressões ou depressões. Ou será que terei que falar sobre o peito de Galisteu? Bom, psicólogos e estudantes de Psicologia, salvem-me, pois vou me afogar no meu narcisimo...
E por falar em psicólogos, encontrei ao acaso um frase de Nietzsche lá no Crepúsculo dos ìdolos e que diz:
" O psicólogo precisa abstrair-se de si, a fim de que seja acima de tudo capaz de ver."
Gostei dessa. Adoro os piscólogos, especialmente meus amigos psicólogos, sobretudo os psicanalistas. Ao pensar neles, acho que já tenho salvação para meu narcisismo exagerado, e olha que só tenho espelhos no banheiro de casa.
Outra frase de Nietzsche, essa velha conhecida de tão citada por todo mundo. Ela diz:
"Sem música a vida seria um erro. O alemão imagina Deus cantando canções"
Concordo com o filósofo bigodudo, sem música seria um erro, a vida. Aliás, sem poesia também seria um grande erro, a vida.
Por causa disso, da vida, da música e, acima de tudo, da poesia, resolvi pôr um poema que acho de uma beleza imensa, principalmente por causa de sua lucidez quase triste. É de Elizabeth Bishop, uma poeta americana que morou no Brasil alguns anos. Chama-se Uma arte. Aos amigos próximos ele não é novidade, pois sempre mando este texto para eles.
Ei-lo:
Uma arte

Elizabeth Bishop

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde da perda
que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia.
Aceita o susto de perder chaves,
e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias ir.
Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe.
A última,ou a penúltima, de minhas casas queridas foi-se.
Não tarda aprender, a arte de perder.
Perdi duas cidades, eram deliciosas.
E,pior, alguns reinos que tive, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente amado), mentir não posso.
É evidente:a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

Em breve vou postar mais poemas, não só dela, mas de outras tao grandes quanto e que talvez imaginassem Deus fazendo poesias.
Agora vou-me pois tenho que contar quantas vezes pus a palavra "eu" neste texto.