terça-feira, 17 de março de 2009

Elis 73


Para Severino José


A capa é simples, com bordas brancas e, no centro, uma imagem em preto e branco na qual se vê uma mulher sentada, rosto baixo, fechado em si, em meio àquele ambiente de intensa grandeza e paradoxal simplicidade. As mãos, em concha, estão uma ao lado da outra, num jogo de sombras em suas formas de veias e dedos firmes, com um contraste entre luz e escuridão no qual se realça mais o clima de introspecção. Na contracapa, a mulher está ainda sentada, o olhar em desafio, como uma esfinge.Nisso tudo, um detalhe: as mãos, quase unidas num gesto de tensão refletido nas veias.Quase uma pintura barroca. O fotógrafo: Jacques Avadis; a modelo: Elis Regina; a obra: um disco seu de 1973.

Penso que, muitas vezes, certos artistas não têm noção da grandeza que eles criam ao conceber certas obras e, nisso, penso em Björk, em Vespertine, ou nos filmes de Bergman. É como se a obra se tornasse algo tão transcendental em sua linguagem que a forma fosse apenas um meio de expressão e o artista o ponto criativo que apenas gerou aquilo que, de tão grande, não lhe é mais. Falo o mesmo desse disco de Elis.

Sucedendo um LP cheio de clássicos instantâneos ( Atrás da porta e Águas e março (versão 1)), o disco de 73 trazia algumas coisas, por assim dizer, estranhas: a expressão de Elis é fortemente séria, não há cor na capa nem na contracapa ( como se disse acima), contrastando com a capa do de 72, o mesmo dos clássicos já citados, uma capa onde se vê uma cantora sorridente sentada numa cadeira e cheia de uma expressão tranqüila de quem estava entrando em uma nova (e duradoura, como se viu depois) relação amorosa. Detalhe: o novo namorado/marido nesse disco de 72 não por acaso é César Camargo Mariano, o pianista que fez belos arranjos para o disco de 72, numa onipresença em todas as faixas. Só pra se provar que o amor pode render belas coisas que ficam registradas no tempo.

Não é só a capa que traz uma certa estranheza. A própria Elis comentou em uma entrevista, na ocasião do pós-lançamento desse disco de 73, que não era só o disco que havia mudado, mas a cabeça dela também. De fato, quem ouve o disco de 72 e quem passa pela experiência de ouvir o de 73 nota isso e percebe, mesmo nas sutilezas, que ela tocou num estado sublime de arte e produziu uma obra cuja dimensão supera a temporalidade. Mas isso é só minha opinião.

De qualquer modo, estão lá faixas como Oriente, na qual se percebe o tom grave que a voz assume na introdução e nos volteios que ela faz entre os timbres agudos, realçando a força da letra casando perfeitamente com os sintetizadores. Ou ainda há a tensão interpretativa de Doente morena, de Gilberto Gil, e O caçador de esmeraldas, de João Bosco e Aldir Blanc, essa última com citação de Lorca meio alterada e com uma letra perfeita entre passado histórico ( Fernão Dias desbravando o Brasil) e um casal que se amassa num fusca no Recreio dos Bandeirantes. São canções distintas, mas que se casam claramente com a voz e a contenção íntima que as letras pedem.

Estas músicas só se engrandecem quando se ligam a outras cuja intensidade é realçada pela sintonia sem igual entre a afinação de Elis (que, curiosamente, nesse disco está com um timbre mais agudo e indo a graves profundos), as letras (basta ver Agnus sei e perceber do que falo) e os arranjos. Além do capricho de César Mariano no piano, Paulinho Braga e Chico Batera dão aula de bateria e percussão (na já citada Agnus sei e em Comadre, entre outras) e Luisão conta historias com seu baixo. Cada um se mostra gênio naquilo que faz, seja na introspecção melancólica de Folhas secas e É com esse que eu vou (uma aula de divisão de frase ), seja no samba com jeitão de jazz que é meio de campo (ouvi tanto essa música pra perceber seus detalhes que temo abusá-la).

Tenho ouvido esse disco esses dias com fones nos ouvidos e fico impressionado com as nuances dele e com a respiração exata de Elis nos momentos de modular e dividir as frases musicais. Não por acaso ponho esse texto hoje aqui porque, se estivesse viva, Elis faria, neste dia 17, 64 anos.

Fico sempre pensando que, se ela estivesse ainda por esse mundo, o que cantaria. Imagino que sua voz já teria ido a regiões impensáveis do som, pois quem ouviu seus últimos discos sabe do que falo. Ainda assim, por outro lado, penso que se toda sua discografia fosse ruim ( o que é impossível de ser ) ou pequena, ela já teria alcançado Deus só com essa pequena obra cuja importância supera até mesmo o sempre histórico Elis e Tom. Quem não os ouviu, ouça. Garanto que não vai mais esquecer.

terça-feira, 10 de março de 2009

carnaval,leite, frango com ameixas e uma casa divertida











Uma amiga, de quem gosto muito, me falou que não entende o porquê de eu ter ido ao carnaval de Recife este ano, gastado uma passagem não tão barata, ter dispendido dinheiro em comida e comprado coisas que poderia comprar de longe, pela net, e não ter ido, de fato, às folias da cidade. Bom, com ela dei risada e tentei, em vão, argumentar que não é extremamente necessário ir a todos os lugares, estar no meio de todas as pessoas e em todos os momentos. Não saí tanto quanto se espera por opção, e acho isso absolutamente normal.

De qualquer modo, compreendo a incompreensão dela, pois todos pensam que, indo a uma festa, você deve conhecê-la, ou vivê-la, com tudo o que ela tem a oferecer e, no caso do carnaval, aliviar os apelos do corpo. No meu caso, a festa é de outro modo e funciona, sim, no meio da multidão, mas tendo muito mais o prazer do reencontro de gente que não vejo há tempos ou de afetos agora resgatados. Simbolicamente, este carnaval foi feito mais pela efusiva força que as mensagens do silêncio têm do que das músicas alegres do centro de Recife. Até porque a chuva e a gripe me ajudaram a ficar assim.


E foi por causa da chuva, da gripe (que me obrigou a ficar em casa, fugindo da chuva) e de uma preguiça de feriado longo que acabei me deparando com livros, cd’s e filmes (muitos filmes ) de um amigo, dono do apartamento onde fiquei.. Daí que, entre os shows e essas coisas todas, fiz uma negociação a qual a chuva foi a mediadora. Nada melhor e mais equilibrado para quem não curte tanto enfrentar multidões e que não se sente suficientemente disposto a sair.

O resultado disso é que, no contrafluxo, fui parar no cinema com uns amigos e acabei vendo Milk e fui apresentado por meu amigo ( dono dos cd’s, filmes e livros ) a duas HQ’s que me fizeram mudar a idéia a respeito desse gênero. Além disso, ainda encontrei por lá uma compilação de entrevistas dadas ao Pasquim, feita apenas por cantores e músicos.

Neste livro, chamado O som do pasquim, li entrevistas que iam de Tom Jobim a Agnaldo Timóteo; de Luiz Gonzaga ( uma das melhores, na qual se deixa transparecer a admiração dos entrevistadores e a coerência do cantor ) a Waldick Soriano. É desse, inclusive, que há uma das melhores frases do livro: “a vida é uma constância de consequências de vários gêneros”. Adorei.


Sobre Milk, muito bom. Quando terminei de ver a projeção, fiquei imaginando quem no Brasil hoje teria uma representação gay ou será que alguém ainda acredita em Marta Suplicy? Nunca acreditei muito e depois do episódio Kassab....

Vi no filme as passeatas pela luta dos gay rights e penso hoje onde se encontram aqui (e no mundo, desconfio) paradas que tenham minimamente um traço político. Sem dúvida, ver Milk dá noção de certas dimensões: de onde nasceram os direitos hoje conquistados e o vácuo ideológico que todos vivemos.

Mas nesse carnaval de tão poucas agitações, as HQ’s foram a minha grande surpresa. Confesso que li a primeira, Frango com ameixas, meio desconfiado, sem crer tanto naquilo. Escrito pela mesma autora de Persépolis, Marjane Satrapi, este livro fala da história de seu tio, Nasser, um homem muito famoso no Irã por tocar um instrumento de corda, chamado Tar. Este instrumento, herdado por ele de seu mestre, é quebrado pela esposa de Nasser num acesso de raiva.

A partir disso, a narrativa se desenrola num longo retorno do músico às lembranças de sua vida, desde jovem, quando conheceu e se apaixonou por uma moça cujo pai não aceitava o casamento por ele ser músico, até o presente, quando ele vê sua vida de casado, junto a outra mulher, que não ama, e filhos os quais ( em quase todos ) ele não se vê. Daí ao final, há uma decisão que ele toma. Óbvio que não vou falar dela aqui.

A outra HQ mexeu mais comigo. Se chama Fun home, numa ambígua referência a “casa divertida” ou “casa funerária”. O fato é que, ambas as denominações cabem à narrativa, escrita por Alison Bechdel, quadrinista norte-americana famosa por ilustrar tirinhas de conteúdo lésbico, Dykes To Watch Out For, e ganhadora de prêmios importantes nos EUA por essa casa divertidamente triste.

Me explico: tal narrativa trata da vida da autora e de sua família, focando especificamente em seu pai, professor de uma pequena cidade americana e obsessivamente fascinado em peças e móveis antigos, os quais ele restaurava. No entanto, isso é só um dado, uma parte mínima da intensa história que vai sendo contada. Eu imagino o quanto de coragem que ela teve em expor não apenas a si mesma, mas também a sua família, destacando e analisando a relação conflituosa entre ela e seu pai, numa oscilação de montanha-russa que, talvez, e isso é apenas impressão minha, só tenha se resolvido quando ela se descobre lésbica e descobre que ele era gay.

Apesar de muitos darem importância a este dado, eu vejo que há algo além desse eixo. É exatamente onde ela relaciona a vida e a morte do pai (um suposto suicídio ) a obras literárias, num senso de clareza e domínio de estilo, nos quais entram autores como Proust, Camus, Fitzgerald e o Ulisses de Joyce, e que fazem ver o seu pai como alguém que, de modo amargurado e defensivo, fez uma escolha que não necessariamente a que ele desejava (casar e ter filhos) e que via nela alguém que poderia fazer outra escolha, diga-se: abdicar de uma vida falsa, plástica e artificial, por outra, mais livre. De tudo isso, é tocante ver que, na fase pós-adolescente dela, a Literatura os uniu como uma ponte possível para compensar a distância deles. Isso é evidente nas belas passagens finais de sua obra.

Curiosamente, estas duas HQ’s me pareceram muito próximas, ainda que tratem de temas sutilmente distintos. Mas , ainda assim, estão lá, em ambas, a família, os filhos, um casamento fracassado e dois homens (os quais existiram) que desviaram a rota de suas vidas por motivos distintos, o que é perceptível quando se lêem as duas histórias. No entanto, os dois homens guardam profundas tristezas encerradas com a morte, voluntária ou não.

Sem dúvida, meu carnaval foi ótimo.


















quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

sutil e sofisticada melancolia




Enfim peguei meus cd’s de Antony and the Jhonsons.

Confesso que havia uma certa expectativa de minha parte em saber se o novo ( The crying light) superaria o I’m a bird now. Já havia ouvido o EP lançado no final do ano passado, Another world, e tinha gostado muito, pois, mesmo diferente do Bird, a sonoridade me atraiu, até porque lá estão o piano, a sutil e sofisticada melancolia de Antony e sua voz soturna (amo você, Filipe!!!), mas o CD, o inteiro, com outras músicas, só agora que recebi, e achava que só o receberia em março.

De qualquer modo, como uma religião, assim que os peguei, os cd’s, os abri com cuidado e esperei voltar pra casa das folias do Carnaval pra ouvir sozinho e com o som bem alto.

Já o fiz, hoje. Sem comentários.

Só sei que estou gostando e espero que quem lê esse blog tente baixar/ouvir os cd’s que falei. Valem a pena.

Detalhe: as capas de ambos ( The crying light e Another world) trazem Kazuo Ohno, bailarino japonês, maior representante do Butô/Butoh, tipo de dança na qual o corpo é a maior e única fonte expressiva. Na foto que está na capa de Another world, Kazuo Ohno ainda faz referência ao teatro, pois, ao lado dele, há uma foto emoldurada de Sarah Bernhardt, atriz francesa mais famosa do século XlX. Ou seja, Antony, não se limita apenas à música. Quem já viu os encartes de seus discos sabe do que falo.










sábado, 7 de fevereiro de 2009

Os modernos


Esses dias, lendo um dos capítulos de Devassos no Paraíso, livro no qual João Silvério Trevisan traça um vasto panorama gay no Brasil, desde a fase colonial até os dias que seguem, li uma frase que, afora sua simplicidade, me chamou atenção.

Vou transcrevê-la:

“(...) a permissividade de nossas sociedades autoproclamadas democráticas é uma fórmula diabólica graças à qual as pessoas encenam liberação para, na verdade, apenas tirar uma casquinha e, em última análise, não liberar nada.”

O mais curioso é que essa frase, fora do contexto dela, cabe à perfeição a um grupo que já venho notando há algum tempo e que, diferente daquele ao qual Trevisan se refere (ele fala das mídias e suas apropriações do universo gay), é traduzido por essa frase. O tal grupo é o que eu chamo de pseudomodernos ou os supermodernos.

Identificá-los não é difícil, pois eles estão soltos por aí, dispersos em shoppings, escolas, academias, universidades, bares (modernos e caretas) e onde mais possam ir. A sua modernidade se traça em roupas, cores, cabelos exóticos, marcas no corpo e muita atitude, seja lá o que isso for.

O discurso, ah o discurso, o mais radical possível, e se for efusivo, daqueles que todos têm de ouvir, pronto: você tem o mais moderno dos modernos, aquele que quer destruir o sistema (nem sei o que é isso....sistema parece ranço de estruturalista), que deseja romper as normas e que quer, acima de tudo, que todos (todos mesmo!!!) saibam que ele (ou ela) é moderno.

Daí que você vai ouvir que ele se droga pra caralho, que adora trepar com homens e mulheres, que fez várias tatuagens no corpo, que não liga pras tendências da moda e muito menos para as regras do mundo.

O discurso, o velho discurso.

No entanto, tal discurso se borra, as roupas se esvaem na falta de sentido quando esses autoproclamados arautos da ultra-liberdade moderna se dão de cara com fatos cotidianos da realidade.

Aí me lembro de um fato, curioso, que um amigo me contou há uns anos, de uma moça, linda, cantora, modelo, antenada com as coisas e que, ao descobrir que ele, o qual se interessou por ela um tempo, era gay ficou em choque. Em segundos a casca moderna se rompeu e ela inverteu seu discurso em acusações que beiravam a crueldade, segundo esse amigo que, por sinal, não vejo há tempos. Deve ter se protegido dos modernos e está em alguma montanha distante. O mais curioso disso é que ela, tão aberta às coisas do mundo, não concebesse que um gay possa se envolver com uma mulher. A modernidade ás vezes soa velha.

Ou outro caso, de uma moça que resolveu contar numa reunião de trabalho que era lésbica e todos ( modernos recifenses que adoram posar de nova-iorquinos blasé nos bares da Galeria Joana D’arc) fingiram naturalidade, quase fizeram um “yeahhhh”. No entanto, de saída de carona com um grupo, essa moça teve de ouvir um comentário nada moderno do tipo: “vamos embora logo, antes que aquela sapatão apareça”. Coisa de modernos. Lógico que o infeliz, ao vê-la no carro, se arrasou diante de sua máscara ter caído e se desculpou o máximo que pôde. Fazer o quê?

Acredito que, muitas vezes, essa forma de expor um discurso prafrentex pode passar pela necessidade de se integrar a grupos ou ambientes onde a tolerância seja a regra, nem que tal tolerância seja apenas um grande teatro. Daí que se criam lugares, bares, boates, festinhas de “gente esquisita” para onde muitos dos antenados vão. Fujo de todos esses. Talvez essa necessidade de afirmação também se dê em gente muito mais nova, ainda também que não seja garantia de que pessoas mais velhas não possam, ainda, estar sob a influência da modernidade de aparência.

Em relação aos mais novos, já me vem aquela sensação de leve pânico quando encontro algum pós-adolescente muito efusivo e, como falam, “alternativo”, pois nunca sei o que pode acontecer, se berram muito alto pra expor o quanto ele é simpático ou se vão falar de suas experiências recentes pra fugir do comum com uma ansiedade tão grande que as palavras mal saem da boca. Como já disse, o discurso, ah o discurso, às vezes pode escamotear preconceitos, falsear, daí que tem que ser muito bem dito.

Isso me lembra dois fatos, distintos, mas que definem bem estes tempos pós-modernos de palavras vazias e atitudes de teatro ou de surpreendente naturalidade sincera que muitas vezes a idade dá. Isto se deu com uma senhora, já idosa, por volta dos 80 anos, que adorava ver os netos com brincos e tatuagens porque achava lindo, ao contrário de sua filha, muito mais nova, que via naquilo um caso claro de viadagem. Ou dessa mesma senhora que trocava presentes e mandava biscoitos e queijo para a namorada da neta. Detalhe: ela nunca foi a lugares de gente linda e conectada com o mundo e muito menos tinha atitude, como já falei, seja lá o que isso for. Não sei, mas desconfio que um discurso mal ajambrado não resiste à maturidade e que certos jovens são bem mais velhos que a gente pensa.

Aí me lembro do outro fato, sem conexão com o que acabei de falar, de uma moça, muito jovem, moderna, efusiva, polêmica entre seus pares, que, ao ver uma foto de amigos, um ao lado do outro com distância de metros, e que estavam tomando banho num rio em uma festa cheia de jovens, modernos, super-modernos, mega-modernos, sexagenários, quase octogenários e cheirando a um ambiente muito família, soltou a seguinte pérola: “porra, bicho, parece sauna gay”. Não acreditando no que ouvi, fiquei apenas calado

Aí me veio aquele poema de Drummond, já bem conhecido, e com o qual muito me identifico. Ei-lo:

Eterno

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,a vida eterna,o fogo eterno.
(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente eternuávamos eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana
se souber florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos;
e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
esponja no caose entre oceanos de nada
gere um ritmo.
(Carlos Drummond de Andrade)

Quero, definitivamente, ser antigo, quadrado e careta.

E que Deus nos salve dos modernos...






sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Tom Jobim


Para Joabe H. e Luis Osete , que adoram Bossa Nova.



Sim, o Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo, o Rio de Janeiro ainda vai ser mais do que ele é quanto mais nos afastamos dele hoje e do que os próprios cariocas ( ou dos que vivem lá ) falam. Tipo: ame-o ou deixe-o.

Particularmente gosto da luz do Rio. Sempre repito isso aos meus amigos quando falo de lá. Acho que foi o que ficou mais marcado em meus olhos: uma cidade rodeada de serras ou pequenas montanhas e muita luz em volta realçando aquela opulência da natureza sendo manchada pela violência e inevitável deterioração.

Mas o Rio que acabou ficando na cabeça dos cariocas e no imaginário coletivo do país é o das calçadas de Copacabana, das praias, do amor, do sorriso e da flor. É o Rio que Tom Jobim forjou em suas melodias sem saber e é o que se sustenta quando nos afastamos dele ou vem num saudosismo do que não foi vivido quando o avião paira sobre a cidade e o Samba do avião volta à nossa mente.

Sem o Rio talvez a Bossa Nova não fosse o que ela é ou tivesse a importância que tem como expressão cultural (não musical, porque ela se sustenta sozinha). Isso que falo parece bobagem, mas acharia meio estranho que fosse Garota de Itapuã e não de Ipanema. Óbvio que a época, o momento e a esperança de um Brasil moderno na figura de Juscelino e suas intensas inovações ajudaram a forjar essa imagem, mas nem Brasília, nem a Bahia nem São Paulo seriam o melhor cenário das personagens e do estilo exposto pela sofisticação bossa novista do que o Rio.

E volto a Tom Jobim. Acho a voz dele enfadonha, feia e cansada. Mas nem todos devem ou podem cantar. O mesmo eu acho de Vinícius, grande poeta, iluminado letrista para forjar belas imagens para as canções (se bem que há coisas que ele fez que, acho, que seria melhor ser só poeta). Ambos, um na confecção das harmonias e outro na tessitura das palavras, deram aquilo que não se esquece e se cristalizou na memória afetiva de quem não é carioca, de quem não conhece tão bem a Bossa Nova e que nunca foi ao Rio. Na voz de quem sabe cantar, essas canções se tornam eternas.

E por falar em cantar e por falar em Tom Jobim e imagens cristalizadas, não se precisa ir muito longe pra saber de tudo isso. Basta ouvir o Elis e Tom, de 76, ou o disco que Gal fez só com canções dele e cujo único erro foi ser ao vivo. Nesses álbuns estão músicas que parecem feitas para embalar histórias de amor com muito sol, desejo de felicidade infinita e uma trilha que só inspira amar e ser amado.

Certamente, as mesmas pessoas ou o cenário que as inspiraram vieram do Rio e é esse Rio da saudade de um passado não vivido que sinto quando ouço essas canções de Jobim, sejam com letras de Vinícius ou não. E são essas mesmas canções que delinearam um amor moderno, sofisticado e solar (como era a juventude dourada que se reunia no AP de Nara ), assim como a Bossa Nova modernizou a música brasileira. Quem quiser entender isso tudo o que falo basta ouvir Corcovado, Fotografia, Ligia, Dindi, Pois é, Se todos fossem iguais a você e, óbvio, a trilogia da beleza: Derradeira primavera, Por causa de você e Eu sei que vou te amar. Ah, ainda tem Janelas abertas, ainda.

Não à toa, Elis pediu como brinde por 10 anos na Philips do Brasil (sua gravadora na época) um disco só com Tom, ao invés de um carrão super caro. Sabia da grandeza desse encontro.

E o Rio continua lindo...



1.75



Para André Dib, Geraldo Miranda, Filipe Bezerra e A. Fontenelle


Tenho um amigo que tem 1.97 de altura. Ele não é só alto, é largo, chama a atenção por onde passa. Além de tudo, é um cara doce e super inteligente, apaixonado pelas moças com quem namora e devotado demais ao sentimento por elas. Afora a inteligência e a simpatia, que lhe marcam, a altura, esse gigantismo em terra de pequenos, já foi (ou é, não sei mais) problema para ele, como no caso dos ônibus municipais, que ele ficava apertado entre um assento e outro, ou das portas cujos pórticos sempre eram baixos demais, ou certos carros em que ele, quase literalmente, ficava entalado, ou dos tênis de número 45 ( ou seria 46?) ou dos colchões tamanho especial.Vendo-o nessas situações, ou ouvindo seus relatos, tentava entender como é ser alto demais num mundo de estaturas médias. Eu só conheço o outro lado, o dos que são altos para serem baixos e os que são baixos demais para serem altos.

Fui ver um dos 5 shows de Madonna em dezembro, em São Paulo. Por mais que ao afirmar isso soe afetado, não tem nada tão forte quanto imaginar o valor simbólico de ir a um show muito produzido de alguém que, de fato, é um ícone vivo daquilo que representa. Isso, e só por isso mesmo, pode dar um sentido ao fato de se ir a um show como esse, porque se se leva em conta que, depois de tanta confusão para se conseguir ingressos tão caros, havia tickets por 10 00 na porta do estádio, é de se repensar o porquê de tantos atropelos e confusões. Ou seja, sábio é quem espera ou quem sabe esperar.

Ter visto esse show pode ter valido mais do que se eu estivesse mais integrado ou, num dizer mais direto, aterrissado lá, no gramado protegido do estádio do Morumbi. Depois de esperar em pé por tantas horas, acho que seis, e ainda estar meio out de tudo o que havia em volta (estou cada vez mais fora do ar, mesmo) só acordei para o show lá pelos 30 minutos iniciais. Me chamaram a atenção a referência aos anos 80 com ela pulando corda e de bermuda e quando, em She’s not me, ela desconstrói cada uma das madonnas que estão lá, cada uma representando uma fase, uma face, uma época, um signo. Semiótica pura: o ícone destruindo seus símbolos ali, a olhos vistos. Mais pós-moderno, impossível, e, paradoxalmente, muito verdadeiro por mostrar que ela mesma sabe o quanto nada é real ou nada é tão verdadeiro. Fiquei pensando nisso por um bom tempo.

Madonna é inteligente e se não fosse, ganharia minha admiração só por essa sacada sobre si mesma e o que ela é (ou não) para as pessoas.

Mas foi no show de Madonna que eu também me percebi como pequeno, baixinho, quase nada. À minha frente, um mar de cabeças e, como se elas não bastassem, as cabeças, havia ainda os braços levantados, inúmeros, com câmeras digitais na mão. Não contente em só fotografar (se eu tivesse tido a coragem de levar minha máquina, fotografaria também), as pessoas resolveram filmar o show. Ou seja: sem chance para os semi-altos de 1.75 como eu assistirem ao show sem ficar na ponta dos pés.

É daí que lembro de meu amigo, alto, muitas vezes em situações embaraçosas por ocupar tanto espaço e eu, ali, enquanto Madonna saracoteava, desejando também entalar em carros, bater a cabeça em tetos de ônibus e dormir atravessado em colchões pequenos para mim. Tudo para ter, ali, 1.97.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Três histórias e uma obra ainda não lida




Voltei a ler um livro que estava num canto há tanto tempo que havia até esquecido onde ele estava. Às vezes acontece isso comigo: começo um livro, paro por um período de lê-lo e o retomo até terminá-lo, com um significado bem diferente de quando comecei.

Ainda hoje estou com o Zen e a arte da manutenção das motocicletas, de Pirsig, encostado (quase no seu fim) numa estante daqui de casa. Apesar de não ter entrado tanto quanto um amigo meu na trip do cara da história, esse livro marcou minha chegada nessa cidade onde moro há quase 4 anos, seja lá o que isso possa significar. Talvez significasse mais se tivesse parado na Divina Comédia de Dante, especialmente no livro que fala dos cones do inferno. Alguns entendem por que.

Mas o livro que retomei é outro e ele só serviu para, além do mote de início desse texto, me relembrar três outras obras que li em fases bem distintas dessa vida de ali e acolá. A primeira é O processo de Kafka.

Este li quando tinha uns 13 ou 14 anos e ainda achava que o rock inglês era uma das melhores coisas do mundo. Ainda morava em minha cidade natal e ficava besta com a literatura, além da música do The Cure e dos Smiths, é claro.

A história de Joseph K, seu absurdo, a falta de sentido cada vez maior que sua vida vai tomando me deixaram impressionados e com uma sensação de choque com seu final, em que ele é assassinado, o qual reproduzo aqui:

“- Como um cão – disse K.

Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele”


Em outra fase, e ainda morando na mesma cidade, ouvi a música do Cure, Killing an arab, e tinha lido em algum lugar que esta canção tinha sido influenciada por uma obra de um autor franco-argelino.

Lá fui eu atrás da obra que influenciou Robert Smith. Chama-se O estrangeiro. Seu autor: Albert Camus. Descobri que uma professora aposentada tinha o livro e fui até sua casa, super nervoso, tímido atrás dos óculos de lentes verdes (os famosos “fundos de garrafa”), e o pedi emprestado. Sob promessas de cuidados, saí tão contente quanto Clarice naquele conto da Felicidade Clandestina.

O interessante é que reli O Estrangeiro anos depois, sem lentes verdes nem óculos nem na mesma cidade, mas a sensação que tive quando o li da primeira vez permaneceu, inclusive do cheiro que o papel trazia, o mesmo cheiro que me acompanhou quando li Dorian Gray, da coleção da mesma professora.

A história de O Estrangeiro é até simples: um homem absolutamente comum (Meursault) numa praia, sob o efeito da luz forte do sol, mata um árabe, sem motivo aparente, é preso e tem sua conduta diante da vida devassada, o que acaba por mostrá-lo como um ser cruel, tão cruel que se recusou a ver a mãe morta sob a tampa da caixão, entre outras coisas.

Camus, assim como Kafka, flerta com o absurdo, e essa sua obra, curta, certeira e com belos diálogos também tem um final que ainda hoje ressoa em minha cabeça. Ei-lo:

“Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”

Sempre imaginei esse final com o personagem encolerizado berrando alto cada palavra, tomado por um ódio sem nome. Não à toa não o esqueço.

A terceira e última obra que citei é do colombiano Garcia Márquez. Li de cara o mais famoso de seus livros, Cem anos de solidão, e dois parágrafos são poucos para comentá-lo. O fato é que, depois desse, passei a ler outros mais e mais dele e, entre tantos que me marcaram a lembrança, ainda hoje a Crônica de uma morte anunciada é como um filme que tivesse visto.

Quando li essa obra, já fazia Letras em Recife e vivia (a cada feriado) pegando carona para o sertão junto com um amiga. Ainda é clara a lembrança da minha obrigação de ir dormir cedo para caronar a partir das 6 da manhã e o desejo de ir ao longo da narrativa que falava da estranha situação de Santiago Nasar, de quem todos, ou quase todos, sabiam que ia morrer, mas nada foi feito até acontecer o já anunciado.

É autenticamente de cinema a descrição da corrida dele até a porta que o salvaria e que, naquele instante, sem que se soubesse do que viria, estava sendo fechada.

Este livro, assim como os outros, pede sua leitura na íntegra, até porque, e só me dei conta disso enquanto escrevia esse texto, guardam a estranha semelhança de apresentar homens comuns colocados sob impasses que os levam à sua execução. Dos três, esse final é o mais cru, e não menos cruel:

“Tropeçou no último degrau, mas se levantou imediatamente.’Teve até o cuidado de de sacudir com a mão a terra que ficou em suas tripas’, disse-me tia Wene. Depois entrou em sua casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha.”

Ah, o livro que estou retomando a leitura é de Camus também. Chama-se A Peste.